Nos últimos dias acompanhei uma rixa já velha: pastores evangélicos contra jogadores de RPG. Os pastores querem proibir o RPG no Brasil alegando que é um jogo satânico e traz uma série de conseqüências danosas para a sociedade, como meia dúzia de crimes ainda não julgados. Os jogadores de RPG alegam que os pastores são radicais e falam coisas descabidas. No fim um grupo utiliza argumentos infelizes para minar o argumento do outro, e vice versa, numa batalha épica interminável que deve terminar quando todos os espectadores estiverem dormindo. Bom, vou tentar analisar no que a idéia de proibir o jogo de RPG não tem nenhum amparo, e que tanto pastores como jogadores de RPG estão equivocados.
Primeiro de tudo, os pastores argumentam que o RPG deve ser proibido no Brasil por que ele está relacionado a coisas satânicas, ao misticismo, a mundos imaginários bizarros e sombrios, etc., como esse tipo de entretenimento está desligado dos fundamentos cristãos, ele levaria à práticas nocivas dentro da sociedade. Primeiro de tudo, o Brasil é um estado laico, ou seja, não possui uma religião oficial, sendo assim, suas leis não devem levar em conta interpretações religiosas, as liberdades civis devem ser mantidas e entre elas deve ser respeitada a maneira como cada um ocupa seu tempo se divertindo. Além disso, dos crimes apresentados como motivados por jogo de RPG, nenhum teve um julgamento que tenha determinado que fosse esse o real motivo dos crimes, a maioria pelo que percebi são alegações da defesa para livrar os criminosos. Além do mais, o RPG é um jogo de interpretação, e aquele que cria um personagem no jogo que pratica furtos, assassinatos, ou qualquer coisa por mais hedionda que seja não está cometendo nenhum crime, está apenas interpretando um criminoso. Se alguém acha que o simples fato de interpretar alguém que comete um crime seja como praticar o próprio crime está vivendo um mundo paradoxal, quer dizer que um ator cristão nunca poderia atuar em um filme bíblico se não fosse dos bonzinhos, então todos os atores que interpretaram Pilatos em filmes e peças teatrais vão queimar no inferno?
Os pastores também argumentam que os livros de RPG têm conteúdo inapropriado para crianças. Com isso eu concordo plenamente, é óbvio que ele tem conteúdo inapropriado para crianças, basta ir numa livraria que qualquer um pode ver que eles possuem indicação de idade - normalmente bem elevada – e que logo nas primeiras páginas indica o conteúdo do livre e explica o seu uso. Todos são bem claros que são jogos de ficção. Vamos ver os que dois livros de RPG bem populares aqui no Brasil dizem:

Texto extraído do livro Dungeons and Dragons 3ª edição, publicado pela editora Devir no Brasil

Texto extraído do livro World of Darkness, presente em uma série de livros publicado pela editora americana White Wolf, essa editora publica livros sobre Vampiro e Lobisomem. O Trecho em destaque, em uma tradução livre, significa “Este livro usa o sobrenatural para ambientações, personagens e temas. Todos os elementos místicos e sobrenaturais são ficcionais para atender apenas a propósitos de entretenimento. Este livro contém material adulto.”.
A primeira imagem é do jogo chamado Dungeons and Dragons e a segunda do livro World of Darkness e está presente em toda nova linha de livros publicados pela White Wolf nos Estados Unidos. Ambos os avisos deixam claro o que se encontra no jogo e os livros, ao menos no Brasil, vem com adesivos com avisos da idade apropriada do material, no caso dos livros da White Wolf, todos são recomendados para maiores de 18 anos.
Agora usam o argumento de que pessoas abaixo da idade indicada estão utilizando esse tipo de material. Realmente estão. Como menores de idade estão fumando cigarros e assistindo filmes pornográficos, eles também estão jogando Vampiro. Quem deve arcar com as conseqüências de menores fumarem ou ver pornografia são as indústrias tabagistas e as distribuidoras de filmes? Não. Então devem ser os outros fumantes e adultos adeptos do prazer solitário? Não. Os pais irresponsáveis que não estão nem ai para o que seus filhos fazem e consomem e que quando vêem que ele está fora da linha vão chorar para o pastor mais próximo que isso foi uma obra do demônio? Esses sim, os pais são responsáveis pelos filhos, eles devem cuidar para que os filhos não fumem, não tenham acesso à pornografia e não jogue jogos indicados para adultos. Mas por que os pastores nunca resolvem dar uma bronca nos pais? Alegam que isso não é culpa dos pais, a culpa é de entidades demoníacas, bom, eu não preciso engolir isso, e ninguém é obrigado a aceitar interpretações religiosas dos outros, se crianças andam fazendo bobagens por ai com material de RPG, que culpem os pais, e não as editoras e os jogadores responsáveis.
Agora os jogadores de RPG. Alguns são bastante lúcidos, utilizam bons argumentos, tem um discurso claro. Mas a maioria está alimentando o discurso dos pastores com suas bobagens, não falam coisa com coisa, usam argumentos sem sentidos e muitas vezes não passam de crianças ou adolescentes defendendo algo que não é indicado para a sua idade, ai fica difícil para que jogadores sérios defendam que o jogo de RPG é saudável. É como se fumantes defendessem o seu direito de fumar representados por fumantes de 16 anos. Querem se defender, é válido, mas se organizem, os pastores evangélicos estão muito na frente dos jogadores de RPG e a sua opinião já atingiu um público bem grande enquanto NÓS, jogadores de RPG ficamos de bobeira nos defendendo junto com pessoas despreparada para isso.
E por fim, se algum daqueles crimes for julgado e o motivo estiver relacionado com a prática de jogar RPG, que os criminosos sejam julgados assim como aqueles que cometem crimes movidos por discussão de futebol, divergências religiosas, etc.